BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Persian, English, Sexo, Dinheiro


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O mochileiro - 3ª parte

Vejo Milão pela última vez da janela do trem. A cabine tem vaga para três, mas estou sozinho. Quatorze horas até Amsterdã. Antes do trem se mover, ganho um colega de viagem: Domenico, um tenor ítalo-americano. Trocamos algumas palavras até cada um voltar a seu mundo.

Algumas paradas depois e a porta da cabine se abre. O cara era prateado! Tênis, calça e jaqueta. Tudo cor de prata. Um rádio ghetto blaster sobre o ombro direito, mochila a tiracolo e uma sacola de plástico com latas de cerveja. “Hi, my name’s Silver”. É, deu pra perceber… O grandalhão ruivo passa entre eu e o Domenico, se acomoda num assento e distribui uma Heineken pra cada um. Notei um resto de tinta prateada em sua orelha. Domenico não se agüenta: “Mas o que faz da vida…hmm…Silver?”. “Artista performático”. Tudo explicado: tinta na orelha, rádio portátil, roupas prateadas.
Silver era escocês e morava em Amsterdã. Conversamos os três sobre música, idiomas e a comunidade européia. Domenico pega no sono. Silver liga o rádio. Música gravada num cassete direto de uma FM italiana. Ou melhor de várias FMs, com mudança de dial e tudo. “Faço isso em toda cidade onde vou”. É, cada um com suas manias.

O trem pára na Basiléia, Suíça. Neve por toda parte e casinhas que parecem de Lego. O sono toma conta. Acordo em algum lugar na Alemanha. Silver também abre os olhos. Na mesinha dobrável, um bilhete: “Obrigado pela companhia. Domenico”. O americano tinha ido participar de um workshop em Colônia. Cara legal.

Estações sem fim pelo caminho e a Alemanha branquinha de neve. Durmo outra vez. Uma mão toca meu ombro não sei quanto tempo depois. Silver me entrega a bandeja. Café com leite, torradas, geléia e iogurte. Agradeço meio sem jeito.



Amsterdã. Não existe controle de imigração. Saímos pela Centraal Station rumo ao burburinho. “E aí Silver, como foi na Itália?”. “Bem-vindo de volta, Silver!”. Meu colega de viagem era popular. O dançarino maluco me leva até o Hunters Bar. Pergunto se me sugere algum hotel. Ele puxa minha mochila e pede pra acompanhá-lo. Trinta metros dali e estamos no Meeting Point. Uma enorme efígie do Bob Marley pintada na recepção. Assino uns papéis e Silver me arrasta de volta pro Hunters. “Mas…e a minha bagagem?”. “Fica tranquilo, você está comigo!”.

MTV com locução em inglês, fliperama e o café mais quente que tomei na vida. Um cinquentão do naipe do Robert Duvall enrola um baseado. Silver também. Mas o escocês esmaga uma pedra de haxixe pra salpicar o cigarrinho. O fumacê toma conta. São 7:30 da manhã. Maconha pra lá, haxixe pra cá. Eu no meio dos malucos, fumando ativa e passivamente



Meeting Point


Hunters Bar



Um hora depois, na parte de cima de um beliche. Dez camas no quarto e iluminação precária. O Meeting Point é um pulgueiro. Mas a mochila já está trancafiada num container. No latão dá pra ler: Frutesp, Piracicaba. “O THC está fazendo efeito, só pode ser”. Nada disso. Meu “armário” em Amsterdã tinha saído do interior de São Paulo com suco de laranja…

Vagando por Daam Square e Red Light District. A mulata bate no vidro e me chama com o dedinho. Sigo em frente. Uma negra de espartilho também me convida para entrar. Me perco no labirinto. Vielas escuras, cheias de vitrines. Loiras, morenas, negras e orientais. Todas à venda. Japoneses se acotovelam para espiar. Alguns senhores aceitam o convite das moças e as persianas se fecham. Sim, a coisa acontece ali mesmo, na cama por trás do vidro.
“No pictures please!”. As plaquinhas avisam. Uma viela leva à outra, que desemboca numa ruazinha escura, que volta pro começo de tudo. Não sei bem o que acho daquilo, mas não consigo sair dali. “É uma filha da puta mesmo…”. A mestiça sai apressada da vitrine, de baby doll e xingando em português.
Sex shop. Live XXX. Strip shows. Exotic dancing. Thai massage. Quarteirões pornográficos envolvendo o comércio de gente.

Quatro dias em Amsterdã e me afundo na vida de bares e cafés. Cerveja no La Rocka e seus 3 andares de festa, snooker e passagens secretas. Mais cerveja no badalado Bulldog. Flyers pra visitar os museus do sexo, da cannabis e da tortura. Deixa pra lá, volto para algum balcão de bar. No Meeting Point o happy hour é à meia-noite e o Hunters fica logo ali.
Cinco da manhã. Um brilho nos olhos e gente resmugando em todas as línguas. É o hippie italiano que mora no hotel desde sempre e trata o quarto como seu.

“Cocaine. Marijuana. Amphetamines”. Traficantes de bicicleta sobem e descem as ruas. “Quer haxixe, meu amigo?’. Dispenso a oferta, mas ofereço uma cerveja. “Prefiro comida, se não se importar”. O nome do cara é Jerry, um pobre imigrante africano. Precisa faturar não sei quanto por dia pra pagar o quarto onde repousa a carcaça. E o albergue dele ainda fecha à meia-noite. “Mas essa vida vale a pena?”. “Isso é porque você não sabe o que é a Gâmbia”. Jerry termina o Big Mac em silêncio. Pelas ruas de Amsterdã, ele me revela os segredos do tráfico, a máfia no porto de Roterdã e o esquema de prostituição do Red Light District.

Deixo Jerry fazer sua correria e vou tomar a saideira no temático Blues Brothers. James Belushi na parede e cardápio de maconha no balcão. Dois policiais se sentam ao meu lado, pedem café e não se importam com névoa branca no bar. Volto pelas ruas estreitas e escuras. “Hey, Eddy!!”. É Silver, no meio de uma gangue de night bikers.

Uma semana em Amsterdã. Antes do trem, resolvo gastar os últimos guilders, amassados num bolso qualquer. Virgin Megastore, shopping Magna Plaza. A voz do Ivan Lins toma conta do ambiente. Agora é fato: tenho que partir…

(continua)


 Escrito por Mr Eddy às 20h56
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O mochileiro - 2ª parte

Cheiro de café e um frio que entra por baixo do cobertor. É estranhamente bom acordar longe de casa. Levanto do sofá depois de muitas horas de sono. “Fuso horário é assim”, me consola Ana, que chegava do serviço.

Com a luz do dia dá pra perceber que o apartamento é pequeno e agradavelmente bagunçado. Faço a “prima collazione” e saio com ela pela cidade.
Regra básica do mochileiro: os pontos cardeais não importam se você souber se virar de metrô. Começo a mapear as estações. Chegamos na praça do Duomo, coberta de pombos e pessoas que insistem em alimentá-los. A catedral quer tocar o céu com suas centenas de torres. Vejo de um lado a famosa Galleria Vittorio Emanuele e do outro, uma filial da Virgin Megastore.
Ana é professora de balé e flamenco. Caminhamos entre os pombos teimosos e os italianos de sobretudo, enquanto ela me conta suas histórias. E eu faço perguntas.



Duomo di Milano



O primeiro dia voa e no meu segundo despertar já sei que estou em Milão. Lampião e Maria Bonita miando por uma lata de atum. Alimento os gatos, tranco o apartamento e deixo a chave no vaso do corredor. Muitas janelas com roupas penduradas. “É, estou na Itália”.

Na rua ao lado tem uma cafeteria. Capuccino e brioche de chocolate pra mim todo santo dia. Por dez dias. Velhinhos sempre lendo a Gazzetta dello Sport, um jornal cor-de-rosa, e o funcionário de costume que me saudava: “Ecco il brasiliano”.

Dez dias. A Ana era mesmo uma ótima anfitriã. “Você gosta de rock?”. E tasca conhecer o temático Pink Floyd Bar, o Bar Itono e a loja da Virgin.

Voltando do resturante num fim de noite e ela pergunta: “você trouxe a chave da portaria?”. “Ah, deve estar no vaso…”. Rimos. Rua deserta com um frio de 3 graus e um sujeito se aproximando. O cara quer saber se moramos ali. Estranho. Ele toca o interfone a esmo e afina a voz: “Eu sou a signorina do apartamento tal e perdi a chave”. Ana pergunta se ele é maluco. O cara é rude e diz que quer entrar, embora não more ali. Um guarda noturno pára sua bicicleta e quer saber o motivo da discussão. “Diz agora, espertinho!”, penso eu em português. Mas os dois se conhecem e vão conversar num canto. Suspeito. Em meio a leve neblina, avisto três pessoas espreitando na esquina e apontando para nós. Ana me puxa pelo braço e saímos dali.

“Eugênio, eu perdi minha chave e não consigo entrar em casa. Posso dormir aí com um amigo?”. E lá vamos a pé pra casa do Eugênio. O sujeito abre a porta depois do terceiro “toc”. Magro, óculos de aro fino e ceroulas. Eugênio é um bailarino brasileiro. Me prontifico a dormir no sofá. Ele me estica uma garrafa de vinho e acomoda a Ana em seu quarto. Acordar de manhã voltou a ser estranho. Nada de Lampião ou Maria Bonita miando na beira do sofá. Avisto o quarto do Eugênio, com a porta aberta e um italiano quarentão esparramado na cama. “É o caso dele”, minha amiga explicaria depois. O sujeito arrumava uma reunião por semana pra escapar da mulher e dormir na casa do Eugênio…

Um dia qualquer descobri a New Zabriskie Point, lojinha punk. Stiv, o proprietário, tinha lançado discos do Negazione, Upset Noise e outros clássicos do underground italiano. Peguei o cara voltando do almoço com a loja fechada. “Me ajuda com essas caixas”. E lá fui eu carregar caixotes abarrotados de vinil. “Bom, agora te pago uma spina”. Fomos pro bar, tomamos o chopp e falamos de punk rock e futebol.

Caminhando de volta rumo à praça do Duomo, vejo um louco estourar uma porta de vidro temperado com uma garrafa de champagne. Italianos se aglomeram pra ver. Desvio, passo por entre os pombos e pego o metrô.

No sábado gastei mais um ticket do Eurail Pass e fui de trem até Pesaro. Show do Eversor com a lendária banda punk Kina. Marco e Lele me pegam na estação. O show é num hospício desativado transformado em centro cultural. C.S.A. Manicomio é o nome. Jogo pebolim, tomo sopão comunitário com os punks e entorno algumas garrafas de Birra Moretti. Os shows são ótimos. No fim, encho minha sacola de vinil e ganho outra carona até a estação. Os irmãos do Eversor me abraçam com força de italiano, sabendo que não me veriam outra vez. A temperatura na estação de Pesaro está abaixo de zero. Um bêbado dorme num banco com uma garrafa dentro de um saco de papel. Abraço um aquecedor de parede e começo a suar. Duas da manhã e o mundo está parado. Vou até a plataforma esticar as canelas e volto para descobrir que um terceiro solitário tinha roubado “meu” aquecedor.

De volta a Milão. As mesmas ruas molhadas, luzes amarelas, bares, caminhadas solitárias, metrô noturno e o vinho que a Ana botava pra gelar no batente da janela. No meu décimo dia achei que era hora de partir.
Deitado no sofá certa noite, examino o mapa ferroviário. Vem o estalo: “Amsterdã!”. Explico para a Ana que no dia seguinte zarpo para a Holanda. Quatorze horas de trem. “E vai ficar aonde?”, pergunta ela preocupada. “Ah, isso eu descubro quando chegar lá…”.

(continua)



Milano Centrale

 Escrito por Mr Eddy às 18h53
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O mochileiro - 1ª parte

Tarde de domingo numa cidade sem nome. O refrão de “I Won’t Let You Down”, do PHD, reverberando pela estação e eu ali, com aquele ridículo paletó apertado e uma mochila pesada pra carregar.

Conversar com freira dá azar. De Roma até a Costa Adriática num trem da Ferrovia Dello Stato e sento ao lado de uma freira velhinha italiana. Ela diz que já esteve numa missão católica em Santarém. Caramba, o mais perto que cheguei de lá foi São Luís e a missão, com certeza, não era das mais nobres.

O sono bate e o papo vai acabando. Desço na estação errada. Com cara de tacho, no meio da plataforma e ouvindo PHD.

Tudo isso porque o visto pra terra do Mickey Mouse foi negado e resolvi zarpar para aquele país cujo mapa parece uma bota. O plano era furado: me instalar num albergue da juventude em Pesaro, porque meus “amigos” da cidade não poderiam me hospedar. Marco e Lele tocavam - ainda tocam? - na banda de hardcore Eversor. Entrevistei os caras por carta para um fanzine – na época não tinha email – e antes de viajar telefonei pra eles. Me convidei a dormir no chão da sala, mas os irmãos passavam a semana toda em Urbino, onde faziam faculdade. Fui para Pesaro mesmo assim, com a carteira de alberguista no bolso e quase nada na cabeça.

Últimos acordes de “I Won’t Let You Down”. O próximo trem só dali a 3 horas. “Por que eu quis vir de paletó? A imigração não se impressionou muito..”. Encontro um telefone e ligo para o Marco. Albergue fechado durante o inverno. “Ah, liga para o meu amigo do selo Chanson D’Amour, de Rimini”. Nada feito. Na cidade do Fellini, o youth hostel também estava em recesso. Pelo menos descobri aonde estou: o lugarejo se chama Falconara.
Parece um episódio do Além da Imaginação: entre o nada e o lugar-nenhum, numa estação com cara de anos 40.

Uma pepsi em lata e um panino no bar. Os ragazzi assistiam aos gols da rodada, largados numa mesa de madeira. Fumando e bebendo. Começa uma discussão clubística e o dono grita de trás do balcão: “Silenzio!”. A tarde vai caindo.

Aquele pacote de Veja que veio na mochila deve ter alguma utilidade. Volto pro telefone público. “Ana? Meu nome é Eduardo e sou amigo do seu irmão, lá no Brasil. Sua mãe deixou umas revistas para eu te entregar. Posso levar?”.

Falconara-Milão. Outra longa viagem a bordo dos trens da FS. Um pouco de sossego após um dia inteiro perdido. A recepção no Fiumicino foi calorosa: abre mochila, mostra documento, fala da vida, pra onde vai, de onde veio, o que faz, quando volta...
“E esse volume aí na sua cintura?”. Toca pra salinha de investigação. Miami Vice à italiana. Fecha persiana, tranca porta e acende a luz. Mostro o dinheiro oculto num cinto com zíper. “Ah, é ‘plata’. Deixa o menino em paz, ele é estudande”. “Plata não que eu sou brasileiro”. Bom, deixa o comentário pra lá.


Gente falando alto e lá se vai o meu cochilo. Universitários de montão invadem o trem com destino a Bologna. O fim de semana acabava e eles voltavam da visita às famílias. Cabelos moderninhos, roupas mais ainda. Cadê o Ranxerox? E a Valentina? E todos os outros personagens do quadrinho italiano? Sim, porque essas figuras saíram de algum gibi, só pode ser.

Estação de Lodi. Os fios despencam e o trem pára. Meia-noite. Será que a irmã do meu quase-amigo ainda iria querer o pacote de revistas? Um velhote de chapéu e sobretudo se levanta, me dá um exemplar do Dylan Dog e desce do trem.

Milano Centrale às 2 da manhã. De lá para a Via Luigi Pasteur num taxi Citröen. A Ana vira minha amiga, porque brasileiros no exterior são sempre amigos. Tiro o paletó, tomo um chá de pêssego e tenho certeza: essa viagem de mochileiro vai longe…



(continua)



-- Post dedicado à Elisa (que precisa se animar e comprar a mochila) e à Giovana, que está de malas prontas pra Cork.


 Escrito por Mr Eddy às 17h43
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It's showtime...

Neste último fim de semana, a RedeTV teve um raro momento de qualidade em sua programação rasteira: a transmissão do All-Star Game da NBA e suas tradicionais competições de habilidade, arremessos e enterradas. Quem não gosta de basquete, provavelmente discordará, ainda que seja difícil apontar outro bom momento na grade da emissora. De qualquer forma, a "rede de TV que mais cresce no Brasil" acertou a mão na transmissão.


Os americanos, comportados até demais na hora de torcer (precisa aparecer um "defense" piscando no telão para se manifestarem), têm know-how de sobra na hora de organizar eventos. Tirando algumas atrações musicais soporíferas - salvaram-se os velhinhos do Beach Boys - a festa tem ritmo e bom humor. Parte do sucesso cabe às celebridades na platéia. Esse ano estavam lá Jack Nicholson (figurinha carimbada no Staples Center, que o narrador da RedeTV chamou de, acredite, "canastrão de Hollywood"!), k.d. Lang, Will Smith, Lennox Lewis e Leonardo DiCaprio. A fama de Gisele Bündchen, pelo jeito, não deve ultrapassar as passarelas e capas de revista: a modelo brasileira era sempre deixada de lado nos enquadramentos da TV americana.

Se os artistas contribuem com glamour, quem rouba a cena são mesmo os craques da NBA. Dentro ou fora da quadra. No Brasil estamos acostumados a jogadores de futebol tímidos, de origem humilde ou devotos ardorosos de Cristo. São estrelas apenas dentro de campo. A imprensa esportiva, conservadora até a medula, tem sua parcela de culpa: quando aparece um bad boy, as rancorosas mesas redondas fazem questão de escorraçá-lo. Isso porque - na nossa realidade - estilo, irreverência e alta performance não combinam. Atleta tem que dar exemplo, ser politicamente correto e, no caso do futebol, abaixar a orelha pra cartolas e empresários.

Seria engraçado imaginar no futebol brasileiro uma figuraça como Allen Iverson, craque do Philadelphia 76ers. Ele é apenas um dos inúmeros jogadores de altíssimo nível que se veste e age como um astro do rap ou do cinema. Na verdade, esse trânsito entre música, filmes e esporte não é incomum à NBA. Michael Jordan contracenou com Patolino e Pernalonga em "Space Jam" e Shaquille O'Neal tem uma respeitada carreira de rapper. Na platéia do Staples Center neste fim de semana, vários atletas desfilavam irreverência com roupas, tatuagens e cortes de cabelo impensáveis para jogadores de futebol.

É comum os cronistas esportivos brazucas usarem termos como "espetáculo" e "show" em seus discursos vazios, mas eles não se tocam que, podando e vigiando a personalidade dos atletas, vamos estar sempre condenados à caretice reinante. Saudades de Serginho Chulapa, Beijoca, Ataliba, Chicão e outros loucos da bola...


O desafio de novatos da NBA, disputado na sexta-feira, foi um exemplo perfeito do que se espera do esporte como entretenimento. A partida, da qual participam jogadores com duas temporadas na liga e calouros - ou "rookies", como eles dizem por lá -, foi uma farra. As duas equipes atuaram sem compromisso e propiciaram jogadas sensacionais. O placar de 142 a 118 - vitória dos "segundo anistas" - deixa claro o relaxamento das defesas, que, tradicionalmente, são o forte do basquete americano. O brasileiro Nenê, do Denver Nuggets, realizou pelo menos 5 enterradas e fez algumas jogadas de efeito. O mais engraçado é quando os locutores daqui o chamam de Nenê Hilário. Parece tudo, menos nome de jogador de basquete...

Agora, divertido mesmo é assistir aos concursos de habilidade, arremesso e enterrada. Por mais que a imprensa tente fazer uma cobertura séria, o evento, no fundo, é uma grande brincadeira. Na disputa de arremessos de 3 pontos - com Dick Dale de trilha sonora! - impressiou a precisão dos sujeitos. Por muito pouco o montenegrino Peja Stojkovich, do Sacramento Kings, não papou o tricampeonato. Mas para nós, brasileiros, é impossível não imaginar como se sairia o eterno Oscar Schmidt nessa competição.

Já o "slam dunk" foi vencido por Fred Jones, do Indiana Pacers, que quase perdeu o troféu ao tentar uma façanha inédita. Em sua última enterrada, ele pediu que a bola fosse lançada à quadra por alguém do público, mas não conseguiu executar a "manobra" e acidentalmente converteu a cesta. Os jurados - entre eles, Magic Johnson e Kareem Abdul-Jabbar - foram obirgados a votar e, claro, deram notas modestas a Jones. O bicampeão Jason Richardson, do Michigan State, tinha tudo para levar o caneco mais uma vez, mas desperdiçou sua última enterrada.

Independentemente do vencedor, todo mundo sorriu e se divertiu com a ousadia e precisão das jogadas. No mundo mesquinho que se tornou o futebol brasileiro e com a ajuda da agourenta imprensa esportiva nacional, é impossível conceber uma festa tão descolada e com astros tão irreverentes.

Pelo menos a RedeTV teve o bom senso de escalar o ex-atleta Marcel como comentarista. Craque dentro das quadras, o cara esbanja simpatia e bom humor em suas observações. Nem tudo está perdido.




Fred Jones, vencedor do Slam Dunk 2004


 Escrito por Mr Eddy às 19h50
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